quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A Democracia Nossa de Cada Dia...


Olá, amigos d'A Caricatura.

Faço breve, porém entusiasmado, elogio ao sistema democrático do Iran:

- O povo tem seus votos computados nas eleições (desde que vote no candidato da situação);
- O povo pode expressar sua opinião sobre o governo (desde que seja a favor);
- O povo manifesta livremente sua orientação sexual (mas esse direito não é utilizado, já que, como afirmou o próprio Ahmadinejad, o Iran não tem cidadãos gays).

Grande abraço e viva a democracia Iraniana!

*A charge acima é uma expressão gráfica do meu asco pela prisão do cartunista iraniano Hadi Heidari, em 23 de outubro, por um regime teocentrista que se pretende vender ao mundo como democrático.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Telefone para Oscar Wilde




Oscar Wilde- Alô?
Pesquisador- Bom dia, senhor Wilde. Gostaria de saber se o senhor tem 5 minutinhos para responder algumas perguntas. Eu trabalho numa empresa de pesquisa de opinião e...
Oscar Wilde- "O trabalho é a praga das classes bebedoras."
Pesquisador- Qual seria, para o senhor, a principal função do Estado?
Oscar Wilde- "O Estado deve fazer o que é útil. O indivíduo deve fazer o que é belo.".
Pesquisador- Na sua opinião, o Estado faz cumprir a constituição brasileira - tratando todos os cidadãos de forma igualitária?
Oscar Wilde- "Não tenho nada a declarar a não ser a minha genialidade".
Pesquisador- Prefere não responder essa pergunta? Ok. O senhor está satisfeito com o papel do Estado na sua vida?
Oscar Wilde- "A insatisfação é o primeiro passo para o progresso de um homem ou de uma nação."
Pesquisador- ...consideraria o atual governo federal "ótimo", "bom", "regular" ou "péssimo"?
Oscar Wilde- "A forma de governo mais adequada ao artista é a ausência de governo. Autoridade sobre ele e a sua arte é algo de ridículo".
Pesquisador- Não consigo classificar essa resposta em meu questionário.
Oscar Wilde- "Ser grande significa ser incompreendido".
Pesquisador- (Risos.) É verdade!
Oscar Wilde- "Ah! Não me diga que concorda comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que estou errado".
Pesquisador- Calma, eu não quis ofender. Só estava sendo natural.
Oscar Wilde- "O natural também é uma pose".
Pesquisador- Podemos continuar? O senhor votaria no presidente Lula se houvesse possibilidade de terceiro mandato?
Oscar Wilde- "O homem pode acreditar no impossível, mas nunca pode acreditar no improvável".
Pesquisador- Só tenho "sim", "não" ou "prefere não dizer"! Em que diabo de opção coloco a sua resposta?
Oscar Wilde- "As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros"
Pesquisador- Esse trabalho não vale o dinheiro que me pagam! (Desliga.)
Oscar Wilde-
"Quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho certeza".


*a caricatura faz parte do meu livro 50 Razões Para Rir.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Caricatura de Picasso


Olá, amigos d'A Caricatura

Eis minha caricatura de Picasso.
Hoje é só isso.
Amanhã: outra charge e outro texto satírico.

Grande Abraço!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Meu livro no Extra.com!


Olá, amigos d'A Caricatura!

Essa é rápida e rasteira, mas, pra mim, muito importante. Meu livro 50 Razões Para Rir está à venda no Extra.com - o que muito me envaidece.
Aos poucos os postos de venda estão aumentando. O retorno nos leitores é muito agradável - um verdadeiro relacionamento virtual, que, mesmo não sendo concreto, é muito real!
Lembro que o espetacular, maravilhoso e soberbo 50 Razões para Rir também é vendido pela bagatela de R$ 18,00 + frete, por este blog e pelo site: www.acaricatura.com.br (com autógrafos, dedicatórias e outros mimos).

Grande Abraço!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A morte e o Riso!

Olá, amigos da Caricatura!

Euripideu Sacarema era desses que não alterava o espírito por nada; era a razão que não baixava armas jamais. Não viera o sujeito ao mundo para brincadeiras. Desde pequerrucho, a carranca fora sua expressão usual, de tal sorte que nada, nem o evento mais fértil em felicidade, o fazia entreabrir a boca para o riso. Ganhou bicicleta e não sorriu; recebeu o primeiro beijo e não sorriu; namorou e não sorriu; casou e não sorriu; ganhou na loteria e não sorriu; teve filhos, netos, bisnetos... e não sorriu!
Aos noventa anos, Euripideu Sacarema esperava a ceifadora visitar o leito de morte. Seus parentes, comovidos, perguntaram o motivo de uma vida de abstinência ao prazer; urgia, naquele instante último, saber a razão de tamanho esforço para nunca ceder mesmo ao ínfimo gracejo.
- Não ri - respondeu o moribundo -, porque não encontrei motivos nesse mundo de tamanho sofrimento e desigualdade.
E morreu, com a habitual máscara de poucos amigos, deixando como herança a culpa cristã que temos interiorizada. A parentalha, perplexa e envergonhada pela falta de compaixão para com as dores alheias, cerrou os olhos em prece à alma do finado.
- Pai nosso que estais nos céus...
Súbito, o inesperado: o corpo sem vida expeliu gases, semelhantes ao punzinho solto, daqueles bem espremidos pelas nádegas, agudinhos, sem pressa para acabar. O riso dos ainda vivos começou tímido ante a solenidade fúnebre; aos poucos ganhou volume e, em uníssono, preencheu até os cantos mais obscuros do quarteirão, anunciando a impotência da morte quando do confronto com o riso. Houve até quem jurasse que o próprio Euripideu Sacarema relaxou o semblante e, depois de morto, assumiu-se cômico e sorriu.

*a caricatura do Dr. da Alegria está no livro de 30 anos da Cooperativa Paulista de Teatro - escrito por Alexandre Mate.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Exame de Toque!



Olá amigos d'A Caricatura!

Fortunato era estudante de veterinária canhoto, tido na conta dos mais competentes. Por ser o melhor aluno da turma, referência aos colegas menos íntimos das lições acadêmicas, ganhou um apelido: Fortunato Sabe-tudo. E, de fato, sabia tudo sobre seus pacientes. Tal consideração tinha pelos animais, que fazia questão de ligar o rádio no melhor do cancioneiro popular, sempre que penetrava com o braço o ânus de uma vaca - atividade rotineira entre os veterinários que tratam dessa espécie. Parecia que os bovinos relaxavam os músculos que circundam o ânus sempre que ouviam Tonico e Tinoco. E deslizava o braço esquerdo do futuro doutor pelo reto do animal que sequer gemia.
Fortunato Sabe-tudo formou-se e teceu, ao longo das décadas, carreira invejável. Tratou milhares de intestinos sempre ao som de Tonico e Tinoco. Passou do rádio para a fita K7, walkman, diskman, mp3, Ipod. Por fim, o braço esquerdo de Fortunato havia pago a conta de tantos ânus bovinos penetrados: a lesão por esforço repetitivo (L.E.R.), havia conduzido o brilhante veterinário à aposentadoria precoce.
Multiplicaram-se os invernos e chegou o tempo de Fortunato fazer exame de toque. Desconfortável, deitou-se de lado sobre a gélida maca do hospital e suou em bicas. O médico tratou de tranquilizá-lo, mas ao escrever no prontuário... veio a surpresa: era, também, canhoto. Vaca. Fortunato Sabe-tudo sentiu-se vaca. O som do lubrificante sendo espalhado pelas luvas fez os músculos do ânus travarem. Sem pensar, assoviou Tonico e Tinoco. Lentamente o ânus ficou dócil, o exame transcorreu sem maiores incômodos, apesar de certa estranheza do examinador que nunca presenciara paciente assoviar durante o procedimento. Fortunato Sabe-tudo saiu do consultório mais feliz do que entrou: considerou-se o melhor dos veterinários... realmente sabia tudo! Sabia até o ponto de vista da vaca.



*a caricatura acima foi feita para uma turma do curso de medicina veterinária.

domingo, 11 de outubro de 2009

A Verdade




- Você acha que eu engordei?

Essa foi a pergunta feita pela moça de vinte e tantos anos, ao aparecer num vestido vermelho que lhe marcava o corpo. Seu noivo, apologista da verdade, pego de surpresa pela pergunta acabrunhante, lembrou da graciosa silueta que tivera a amante. O silêncio veio como resposta.

- Pode falar. Eu engordei um pouquinho, não engordei?

A insistência fez o rapaz de rígida formação protestante a, num átimo, fletar com a mentira conveniente pela primeira vez. Mas o que o Senhor Jesus haveria de pensar? Permaneceu de boca cerrada, apesar de esboçar um sorriso embebido de amarelo.

- Fala, amor!

A imagem de uma leitoa saltou-lhe à mente, mas foi prontamente exorcizada com um leve esforço mental. A moça insistia na obtenção de uma resposta e o pobre sujeito, vítima da verdade, teria de manifestar-se. O conflito entre a mágoa iminente da companheira e a traição de seus princípios beirava o insuportável. Resolveu o dilema com um galante convite:

- Que tal uma bomba de chocolate?

Ambos saíram em direção à confeitaria, lépidos, felizes, desejando o punhado de açúcar – que é ideal tanto para aliviar a preocupação com a aparência quanto para adoçar a verdade.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Gente!

Olá, amigos da Caricatura!

Tem bicho que parece gente.
Feito certa cadela de nome Sofia - que se não tiver carinho vai chorar na cama.
Tem gente que parece bicho.
Feito um conhecido meu - que, pra se dizer rebelde, urina nos muros das empresas privadas.
Tem gente que parece máquina.
Feito esse povo mecatrônico - que acorda pra trabalhar e trabalha pra acordar.
Tem máquina que parece gente.
Feito esses robôs japoneses - que, dia desses, recebem uma alma no upgrade.
Tem gente que parece Deus; Deus que parece gente.
Agora... o difícil é achar gente como a gente: pois gente fina, que nem a gente, só existe em número ímpar... e não chega ao 3.

Grande Abraço!

*a ilustração foi para a capa da Revista Profissionais & Negócios, da Editora Fênix.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O Saci e a Abóbora

Olá, Amigos d'A Caricatura!

Nas férias últimas, passeava sozinho pela mata de Alfenas (interior de minas Gerais), quando ouvi o intrigante diálogo que ora relato:

Jack Abóbora- A luta continua, Saci!
Saci- Luta?
Jack Abóbora- Está na hora de nós, seres lendários, unirmo-nos.
Saci- Pra quê?
Jack Abóbora- Pra dar expressão concreta à consciência de classe.
Saci- Consciência de Classe? O que é isso?
Jack Abóbora- É quando um ser fantástico se identifica no trabalho assustador do outro ser fantástico. Uma vez organizados, cobraremos direitos autorais das editoras, da lojas de fantasias, televisões... é em cima da nossa imagem folclórica que eles lucram! Você vai faturar muito com as vendas dos livros de Monteiro Lobato.
Saci- Dinheiro?
Jack Abóbora- Muito dinheiro!
Saci- Sei. Então, quer dizer... que você se identifica comigo?
Jack Abóbora- Totalmente! Somos frutos do mesmo processo histórico fabular; somos companheiros; somos, praticamente, camaradas mitológicos!
Saci- Fico aliviado.
Jack Abóbora- Aliviado?
Saci- Não vou precisar pedir desculpas.
Jack Abóbora- Pelo quê?
Saci- Por saciar minha vontade de comer abóbora.
Jack Abóbora- Comer... abóbora?!
Saci- Mas fique tranquilo, a luta continua! (nhac!)

Quando me aproximei, o que havia sobrado do espetacular encontro não contava mais do que um punhado de bagaço de abóbora.

Grande Abraço!

* a ilustração acima foi feita para o pessoal da Revista Carta Fundamental.