27 de fevereiro de 2010

Adolescentes e Formigas


Miguelito chamava atenção pelo espírito acabrunhado e cogitativo. Antes de dar vazão a qualquer tipo de expressão, o garoto pensava nas possíveis reações de seus interlocutores; tamanha reflexão, deixava escapar o tempo da palavra, o silêncio imperava. Pelo tanto introspectivo, sua  vontade não tinha efeito na escolha das refeições, nos passeios familiares, e, tampouco, nas raras brincadeiras com as crianças do entorno. De quando em quando, como acontece aos meninos ainda sem barba, era alvo da achincalhação dos encrenqueiros. Foi assim que conheceu Formiga, um antigo morador do edifício para o qual a família de Miguelito se mudara.  O gosto pela tortura do mais fraco, que aquele parecia ter, só perdia para o prazer de observar lágrimas alheias. No dia das crianças, meteu na cabeça que iria abaixar as calças de Miguelito na frente das meninas – nada mais humilhante!
-       Bunda branca! Bunda branca! - bradava o Formiga.
Revidar? Além da inferioridade física, Miguelito não tinha a menor intimidade com o confronto. De silêncio em silêncio, partiu para a vingança simbólica; imaginava mirabolantes histórias nas quais Formiga era vil inimigo da humanidade: tentava conquistar o mundo, praticava genocídio, seqüestrava as belas mulheres... mas, ao cabo, Miguelito salvava o dia com poderes dignos dos super-heróis.  Súbito, Formiga foi morar noutro edifício e nunca mais deu as caras.  Mas tanto exercício de criatividade, como válvula de escape para a raiva e impotência, inclinou o jovem ao ofício da ficção. Anos mais tarde, tornar-se-ia cronista. No lançamento do primeiro livro, imprensa festiva, amigos orgulhosos e com a tal “inveja branca”, a terceira pessoa na fila de autógrafos era o Formiga: cabeça já dando lugar à calva dos trinta e poucos, barba de dois dias, sorriso sem graça e figura um pouco mal tratada pelo tempo.
-       Lembra de mim? Moramos no mesmo prédio...
Antes que o escritor estreante pudesse responder, foi cortado por uma estridente voz feminina que atravessava a livraria:
- Formiga, anda logo! Não sei o porquê dessa frescura de assinar livro! Até parece que já leu alguma coisa na vida - esganiçava a esposa.
Miguelito assinou o livro e viu o sujeito reduzido à pequeneza. Uma formiga.

24 de fevereiro de 2010

23 de fevereiro de 2010

CARTA ABERTA À PREFEITURA DE PIRACICABA


Fonte: Gualberto 26/1/2010 - que eu peguei lá no blog do Graúna.
CARTA ABERTA À PREFEITURA DE PIRACICABA
Ilmo. Sr. Prefeito Barjas Negri,


Srs.Vereadores da Câmara Municipal de Piracicaba, André Gustavo Bandeira, Ary de Camargo Pedroso Jr, Bruno Prata, Capitão Gomes, Carlos Alberto Cavalcante, João Manoel dos Santos, José Antonio Fernandes Paiva, José Aparecido Longatto, José Benedito Lopes, José Luiz Ribeiro, José Pedro Leite da Silva, Laércio Trevisan Jr, Márcia Gondim C. C. Dias Pacheco, Marcos Antonio de Oliveira, Paulo Henrique Paranhos Ribeiro e Walter Ferreira da Silva


Cidadãos de Piracicaba,
Esta carta representa as entidades de classe abaixo assinadas, com cerca de dois mil profissionais do humor gráfico brasileiro, integrantes de veículos de comunicação da imprensa escrita, TV e Internet, editoras de livros e agências de publicidade.
Os cartunistas são a alma do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Sem sua participação, não há conteúdo para a realização do evento. Somos, portanto, também responsáveis pela sua continuidade. Algo que o poder público municipal não pode deixar de reconhecer.
Aqui externamos, em carta aberta, nosso repúdio categóricoà maneira pela qual a Sra. Maria Ivete Araújo (Zetti), colaboradora e diretora do Salão Internacional de Humor de Piracicaba nos últimos 30 anos, foi exonerada de seu cargo, durante as festas de fim de ano, através de uma carta entregue pelo secretário substituto temporário.
É inegável a competência de Maria Ivete Araújo, ao longo de inúmeras gestões, na construção da longa história de sucesso do Salão. Razão pela qual adquiriu todo o respeito no Brasil e no estrangeiro. Tendo sido, inclusive, adotada pelos humoristas gráficos como um símbolo da continuidade e resistência, até mesmo diante da ditadura e da censura.
Em vez de uma justa homenagem, pelo relevante trabalho prestado em nome do município de Piracicaba e pelos longos anos de diálogo entre a cidade e os cartunistas,“Zetti” foi descartada por uma decisão notadamente política.
Apelamos, enfim, à sensibilidade do poder executivo e dos parlamentares. Porque o Salão não se resume a meras decisões administrativas e burocráticas. O espírito do evento valoriza, acima de tudo, o livre pensar e a Arte. É assim que os cartunistas o compreendem. 
Fazemos um apelo ao bom senso do Sr. Prefeito Barjas Negri, que sempre demonstrou carinho pelo Salão. Não será em sua gestão, assim insistimos, que esse rico diálogo cultural será desprezado.
Por princípio, acreditamos que o que há de mais admirável no exercício da política sempre paira acima das bandeiras e interesses partidários. Deve-se governar pelo bem comum. Nós, cartunistas, somos justamente os maiores especialistas em traduzir, por meio de charges e cartuns, o pensamento do povo sobre tantos temas nacionais como esse.
Aguardamos uma resposta, o mais breve possível, à nossa solicitação de retorno da Sra. Maria Ivete Araújo ao cargo de Diretora do Centro Nacional de Documentação, Pesquisa e Divulgação de Humor de Piracicaba (CEDHU) complementando com uma ampla discussão sobre o processo de modernização estrutural do Salão e seu fortalecimento. Pois temos toda a convicção de que tal decisão será essencial para a valorização de nossa representatividade no evento.


Atenciosamente,


ASSOCIAÇÃO DOS CARTUNISTAS DO BRASIL (ACB),POR JOSÉ ALBERTO LOVETRO 
Rua Lourenço Rodrigues Souza, 174 – CEP 02760-050 – São Paulo/SP


INSTITUTO MEMORIAL DE ARTES GRÁFICAS DO BRASIL (IMAG), POR GUALBERTO COSTA


SOCIEDADE DOS ILUSTRADORES DO BRASIL (SIB), POR ORLANDO PEDROSO (PELO CONSELHO DIRETOR)


COM APOIO DE:
ADÃO, AIRON,ALAN SOUTO MAIOR, ALBERT PIAUI, ALCY, ALMEIDA, AMORIM, ANDRÉ BROWN, ANDRÉ DINIZ, ANDRÉ VALENTE, ANGELI, ATTILIO, AUDÁLIO DANTAS, BAPTISTÃO, BENETT,BIRA, BIRATAN, BRUNO LIBERATI, CAIO YO, CARCAMO, CARLUS, CARRIERO, CASSO, CAU GOMEZ,CESAR FREITAS, CIVAL EINSTEIN, CLAUDIO MARTINI,CLÉRISTON, CUSTÓDIO, DACOSTA, DANIEL ESTEVES, DANIELA BAPTISTA, DÊNIS MENDES, DIL MARCIO, DINO ALVES, DIOGO SALLES, DOUGLAS QUINTA REIS, DUKE, Dra BETÂNIA LIBANIO,Dra SONIA LUYTEN, EDGAR VASQUES, EDRA, EDU MENDES, ELOAR GUAZZELLI, EMILIO DAMIANI, EMMAN, ÉRICO ASSIS, FABIO SALES AGNATI, FAUSTO BERGOCCE, FERNANDES, FERNANDO COELHO DOS SANTOS, FERNANDO GONSALES, FLAVIO LUIZ, FLOREAL, FRED, GUALBERTO COSTA, HUMBERTO PESSOA, HUMBERTO YASHIMA, IEIO, JAL,JBOSCO, JEAN, JÔ OLIVEIRA, JOÃO LIN, JORGE BARRETO, JORGE INACIO, JOTAA,JOZZ, JUNIÃO, JUNIOR LOPES, KLEVISSON, LAERTE, LAUDO, LEANDRO BIERHALS, LEANDRO ROBLES, LELIS, LUIS FERNANDO VERÍSSIMO, LUIZ CARNEIRO, LUTE, MACHADO, MANGA, MARCELO ALENCAR, MARCELO RAMPAZO, MARCIO BARALDI, MÁRCIO LEITE, MARCOS GARUTI, MARCOS VENCESLAU, MARINGONI, MASTROTTI, MAURICIO RETT, MAXX, MICHELLE RAMOS BARBOSA, MINO, MIRAN, MORETTINI, NEI LIMA, OMAR VIÑOLE, ORLANDELI, ORLANDO, PAFFARO, PAULO BRANCO, PAULO SETUBAL, PAULO URSO, PELICANO, QUINHO, RAPHAEL FERNANDES, RAY COSTA, RENATO LEBEAU, RENATO STEGUN, RICARDO SOARES, RICKY GOODWIN, RICO, ROBERTO RIBEIRO, RODRIGO ROSA, RÔMULO, RONALDO CUNHA DIAS, RUCKE, SANTIAGO, SERGIO GOMES, SERGIO MÁS, SIDNEY GUSMAN, SOLDA, SPACCA, SPETT, TONI DAGOSTINHO, TURCIUS, VERDE, VERONEZI, WILSON FIGUEREDO, WILL, WILLIAM MEDEIROS, ZÉ ROBERTO, ZÉLIO, ZIRALDO e ZUENIR VENTURA.

17 de fevereiro de 2010

José Arruda (3)


Minha avó já dizia em bom português regional: "pra ter sorte é preciso grudar um tantinho de arruda atrás da oreia". Quem andasse com arruda poderia ficar certo de que seria agraciado com as benesses da Fortuna. Bem, parece que as coisas mudaram um "tantinho"; hoje, quem anda com Arruda está arriscado a amargar um aperto nos braços da lei.

O governador sentiu o peso da mudança - lenta, é bem verdade -, e pode entrar para a história como o primeiro a pagar, de fato, o preço de crimes contra a nação. Esperemos que o jogo político não traga de volta a velha arruda - da qual tanto falou minha avó -, dando sorte aos que não a merecem.

Bons augúrios a todos!

  

9 de fevereiro de 2010

José Arruda (2)



Olá, amigos d'A Caricatura do Brasil!
Os últimos informes oriundos do Distrito Federal dão conta de uma estranha espécie de morcego mutante. Fiquem atentos, é possível que a praga já tenha se espalhado por outras regiões do país... 
...fechem as janelas!

5 de fevereiro de 2010

Olavo Bilac



Os Pobres



Aí vêm pelos caminhos,
Descalços, de pés no chão,
Os pobres que andam sozinhos,
Implorando compaixão.

Vivem sem cama e sem teto,
Na fome e na solidão:
Pedem um pouco de afeto,
Pedem um pouco de pão.

São tímidos? São covardes?
Têm pejo? Têm confusão?
Parai quando os encontrardes,
E dai-lhes a vossa mão!

Guiai-lhe os tristes passos!
Dai-lhes, sem hesitação,
O apoio do vossos braços,
Metade de vosso pão!

Não receieis que, algum dia,
Vos assalte a ingratidão:
O prêmio está na alegria
Que tereis no coração.

Protegei os desgraçados,
Órfãos de toda a afeição:
E sereis abençoados
Por um pedaço de pão . . . 



*a caricatura de Olavo Bilac faz parte de futura exposição.

4 de fevereiro de 2010

Chávez!

Logo no início de seu 18 Brumário, Marx aponta: "Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa".
Ao utilizar o nome de Simón Bolívar, parece a mim que Hugo Chávez lança mão de uma artimanha  semelhante a de Luís Bonaparte: vale-se do prestígio político alheio para justificar sua "revolução"; evoca o espírito nacional e os gritos de uma outra era para servir de muro de arrimo social.
É triste quando o autoritário se veste do socialismo e pratica a barbárie que afirma combater.